E se a vida em outro planeta não se parecer nada com a vida daqui? Essa pergunta incomoda os cientistas há décadas porque quase todo método que usamos para procurar vida fora da Terra parte do princípio de que ela vai se parecer, pelo menos um pouco, com a vida que conhecemos. Um estudo recente propõe outro caminho: em vez de procurar substâncias químicas específicas, procurar por complexidade. O problema de procurar vida extraterrestre parecida com a nossa Sondas, telescópios e radiotelescópios já vasculham o Sistema Solar e além em busca de sinais de vida. Telescópios como o James Webb conseguem até analisar a atmosfera de planetas distantes, buscando gases parecidos com os da atmosfera terrestre. O problema é que esses métodos costumam presumir que a vida extraterrestre vai precisar do mesmo equilíbrio de gases, produzir os mesmos compostos químicos ou até desenvolver tecnologias parecidas com as nossas. Se a vida em outro planeta for muito diferente disso, um método baseado só nesses parâmetros pode simplesmente não encontrá-la ou pior, pode confundir um processo geológico comum com um sinal de vida. O que é uma bioassinatura “agnóstica”? Para resolver esse problema, cientistas vêm desenvolvendo o que chamam de bioassinaturas agnósticas: sinais de vida que fazem o mínimo possível de suposições sobre como essa vida deveria ser. Um desses sinais é justamente a complexidade. A ideia por trás disso é simples de entender, mesmo sendo difícil de medir com precisão: seres vivos tendem a criar sistemas mais complexos do que ambientes sem vida. Uma vez que esses sistemas apresentam uma mistura de padrão e variação que nem um ambiente completamente estável (como um deserto parado) nem um ambiente completamente aleatório (como ruído puro) conseguem produzir sozinhos. Comparando a luz da Terra com a de Marte Para testar essa ideia, uma equipe de pesquisadores liderada por Stuart Bartlett, do Instituto de Tecnologia da Califórnia (Caltech), decidiu tratar dois planetas que já conhecemos bem, como se fossem exoplanetas distantes: a Terra (com vida) e Marte (sem vida, até onde sabemos), dois planetas rochosos parecidos entre si, mas com destinos bem diferentes. Em vez de fotografar os dois planetas, os cientistas coletaram medições de quanta luz cada planeta refletia. Os cientistas chamam de refletância a quantidade de luz refletida de volta para o espaço. Esse é exatamente o tipo de dado limitado que conseguimos captar de um exoplaneta muito distante, que aparece nos telescópios como um simples pontinho de luz. Os dados da Terra vieram do DSCOVR (Observatório Climático do Espaço Profundo), um observatório espacial que fica entre a Terra e o Sol; os dados de Marte vieram da sonda Hope, da missão Emirates Mars Mission, dos Emirados Árabes Unidos. Ao todo, foram analisados 486 dias de observações de cada planeta, em três faixas de cor de luz que dava para comparar diretamente entre os dois planetas. Como os cientistas mediram a “complexidade” de um planeta Sem procurar nenhuma substância química específica, a equipe aplicou uma série de testes estatísticos para medir o quanto a luz refletida de cada planeta variava e o quanto essa variação parecia estruturada, e não apenas aleatória. Entre as ferramentas usadas estão a entropia de Shannon (que mede o quão espalhados os valores de luz estão, em vez de ficarem concentrados em poucos padrões repetidos) e a compressibilidade dos dados (planetas mais “imprevisíveis” geram arquivos de dados que resistem mais à compactação, porque têm menos repetição para explorar). A equipe também usou modelos mais sofisticados, capazes de estimar o tamanho do “padrão mínimo” necessário para prever o comportamento de cada planeta ao longo do tempo. O resultado: a Terra é mensuravelmente mais complexa que Marte O resultado foi consistente: em todas as três faixas de cor de luz analisadas, e em todas as métricas de complexidade testadas, a Terra pontuou mais alto do que Marte, sem uma única exceção. Ou seja, mesmo captando apenas um feixe de luz de cada planeta, sem nenhuma informação química direta, foi possível distinguir estatisticamente o planeta com vida do planeta sem vida. Isso prova que a Terra tem vida? As ressalvas do próprio estudo Os próprios pesquisadores fazem questão de destacar os limites dessa conclusão. A Terra não é só diferente de Marte por ter vida, ela também tem oceanos e uma atmosfera bem mais densa, o que já adicionaria complexidade às medições de luz por conta própria, através de nuvens se formando e se dissipando, ou do contraste forte entre terra e água. Isso deixa duas explicações possíveis em aberto: ou a vida é responsável por essas características que tornam a Terra mais complexa, ou a Terra seria complexa desse jeito de qualquer forma, com ou sem vida e, nesse caso, a comparação não provaria muita coisa sobre a ligação entre vida e complexidade. Para os pesquisadores, resolver essa dúvida por completo exigiria comparar a Terra com uma versão idêntica dela mesma, mas sem vida. Futuras missões de busca por vida extraterrestre A equipe já planeja expandir o teste para outros planetas do Sistema Solar, como Vênus e Titã (a maior lua de Saturno), além de simulações de exoplanetas com diferentes tipos de atmosfera e química hipotética. Se o método continuar se confirmando, ele pode se tornar uma ferramenta para futuras missões de busca por vida extraterrestre, incluindo o próprio Telescópio James Webb e o conceito de missão conhecido como Habitable Worlds Observatory (Observatório de Mundos Habitáveis), ainda em desenvolvimento pela NASA. O estudo completo foi publicado em junho de 2026 na revista científica The Astronomical Journal, com dedicatória ao professor Yuk L. Yung, do Caltech, coautor da pesquisa e uma referência de décadas nos estudos sobre a possibilidade de vida além da Terra, que faleceu pouco antes da pu blicação do artigo. FAQ – Perguntas frequentes
Pikachu no espaço: a inusitada missão da ESA e Pokémon para a Semana Mundial do Espaço
Um Pikachu de pelúcia passou mais de dois meses orbitando a Terra a bordo da Estação Espacial Internacional. A viagem foi só o pontapé inicial de uma parceria oficial entre a Agência Espacial Europeia (ESA) e a The Pokémon Company International, criada para celebrar a Semana Mundial do Espaço de 2026, que acontece de 4 a 10 de outubro. O que é a parceria entre a ESA e Pokémon? O objetivo da parceria entre a ESA e Pokémon é despertar a curiosidade pelo espaço em pessoas de todas as idades, usando um universo que já é extremamente popular entre crianças e adultos. “Inspirar as futuras gerações é uma parte fundamental da missão da ESA. Através desta colaboração com Pokémon, estamos a abrir novas formas para que pessoas em toda a Europa se conectem com o espaço através de uma experiência única e envolvente”, afirmou Josef Aschbacher, Diretor-Geral da ESA. Do lado da Pokémon, o recado foi parecido. “Toda jornada Pokémon começa com uma sensação de admiração pelo que existe além do mundo que você conhece. […] A colaboração com a ESA abre uma nova fronteira para os fãs, unindo o mundo Pokémon e a maravilha do espaço”, disse Mathieu Galante, diretor sênior de licenciamento da The Pokémon Company International. Pikachu esteve mesmo na Estação Espacial Internacional? Sim, um pikachu de pelúcia viajou a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS), que orbita a Terra a cerca de 400 quilômetros de altitude, durante a missão da astronauta francesa da ESA, Sophie Adenot. O “Pikachu Astronauta”, como foi batizado oficialmente, passou 67 dias em órbita, de 11 de abril a 17 de junho de 2026, completando aproximadamente 1.040 voltas ao redor do planeta Terra. E depois de flutuar ao lado de astronautas de verdade, o bichinho de pelúcia pikachu fará parte de uma exposição única da ESA em parceria com Pokémon. A exposição: ciência de verdade com um toque de Pokémon O centro da parceria é uma exposição inteiramente nova, pensada para famílias, criada em conjunto pela ESA e pela Pokémon. A ideia é misturar conteúdo científico com cultura pop: por meio de painéis temáticos, os visitantes vão descobrir como a Europa lança missões espaciais, como apoia astronautas a bordo da ISS, como estuda o Sol e como explora o Sistema Solar e o Universo. Alguns desses painéis serão bem lúdicos e terão imagens de personagens do Pokémon, tudo isso para tornar temas científicos sérios mais divertidos para os visitantes da exposição. Onde e quando ver a exposição A exposição estreia durante os Dias abertos da ESA de 2026, passando por diferentes instalações da agência na Europa: Depois desse lançamento inicial, a exposição segue viajando por museus e eventos de toda a Europa, de outubro de 2026 até abril de 2027: (Como esse calendário se estende por vários meses, vale sempre checar a página oficial da ESA para confirmar se alguma data ou local mudou.) A experiência também chega ao Pokémon GO A parceria não fica só no mundo físico. De 4 de outubro de 2026 a 30 de abril de 2027, quem visitar os museus de ciência e espaço participantes em toda a Europa vai poder viver uma experiência especial dentro do próprio jogo Pokémon GO, com encontros com o Pikachu Astronauta. Entre as atividades disponíveis estão Raids de Uma Estrela com o Pikachu Astronauta, Pesquisas Temporárias e encontros especiais com outros Pokémon, alguns deles ganhando um cenário de fundo exclusivo em comemoração à visita. Durante a própria Semana Mundial do Espaço, de 4 a 10 de outubro de 2026, o evento fica ainda mais completo, com conteúdo extra de Pesquisa de Campo e mais Pokémon aparecendo perto dos museus participantes. E, para quem quiser levar um pedacinho dessa parceria para casa, roupas, acessórios e itens colecionáveis também estarão à venda nos canais oficiais da ESA e da Pokémon, além de lojas de alguns museus parceiros. Perguntas frequentes sobre a parceria ESA x Pokémon
Missão MMX: Japão trará amostras de Fobos para a Terra
Pela primeira vez na história, uma missão espacial vai tentar trazer para a Terra um pedaço de uma lua que orbita Marte. O responsável por essa proeza é o Japão, com a missão MMX — sigla para Martian Moons eXploration, ou “Exploração das Luas de Marte”. O alvo é Fobos, a maior das duas luas de Marte, e a expectativa é trazer as primeiras amostras à Terra em 2031. O que é a missão MMX? A MMX é uma missão liderada pela JAXA, a agência espacial japonesa, com participação da NASA (Estados Unidos), da CNES (França), da DLR (Alemanha) e da ESA (Europa). Essa é de longe, a maior missão de exploração planetária internacional já liderada pelo Japão. O lançamento está previsto para outubro de 2026, a bordo de um foguete H3, a partir do Centro Espacial de Tanegashima. A espaçonave deve levar cerca de um ano só para chegar até a esfera de influência de Marte, onde vai passar mais três anos observando o planeta e suas duas luas, além de pousar em Fobos para coletar amostras, antes de iniciar a longa viagem de volta de aproximadamente um ano também. A cápsula com as amostras deve se separar da espaçonave principal e reentrar na atmosfera terrestre, com pouso previsto na Austrália, em 203, trazendo pelo menos 10 gramas de material de Fobos para estudo na Terra. Essa será a primeira vez que uma missão espacial traz de volta amostras de uma lua em órbita de Marte e também o primeiro lançamento de uma sonda japonesa rumo a Marte em 28 anos. Além da coleta de amostras, a missão japonesa pretende responder como surgiram, no Sistema Solar, os ingredientes e as condições necessárias para que a vida pudesse existir? Estudar a origem de Fobos e Deimos pode revelar como água e matéria orgânica se espalharam pela região onde Marte se formou. Peças importantes desse quebra-cabeça sobre a habitabilidade dos planetas rochosos, incluindo o nosso. Por que Fobos, e não Marte? Fobos é pequena, tem um raio de apenas cerca de 11 quilômetros, mas guarda um mistério e tanto: ninguém sabe ao certo de onde ela veio. Existem duas teorias principais. A primeira diz que Fobos e sua irmã Deimos são, na verdade, asteroides capturados pela gravidade de Marte há muito tempo. A segunda diz que as duas luas se formaram a partir de detritos lançados em órbita depois de uma colisão gigante entre Marte e outro corpo do espaço. Parecido com a teoria mais aceita para a origem da nossa própria Lua. Também existe a possibilidade de um processo “híbrido”, misturando as duas ideias. Um detalhe que pesa a favor da teoria do impacto: as órbitas de Fobos e Deimos são quase perfeitamente circulares e seguem exatamente o plano do equador de Marte, na mesma direção da rotação do planeta. Um padrão mais difícil de explicar se elas fossem, simplesmente, asteroides “pegos de passagem”. Além disso, os cientistas acreditam que Fobos guarda outro tesouro: ao longo do tempo, impactos em Marte lançaram material do planeta para o espaço, e parte desse material pode ter se depositado na superfície da lua. As estimativas indicam que cerca de 0,1% do material coletado pela MMX pode, na verdade, ter vindo do próprio planeta Marte. O desafio de pousar em um lugar tão estranho Pousar em Fobos é desafiador porque a gravidade da lua é muito mais forte do que a do asteroide Ryugu, onde a JAXA já pousou uma sonda antes, usando um método rápido de “toque e vai embora”. Mas é muito mais fraca do que a gravidade da nossa Lua. Isso deixa a MMX sem uma técnica pronta para usar: o método usado em Ryugu gastaria combustível demais em Fobos, mas as técnicas pensadas para pousos lunares também não servem para uma gravidade tão fraca. Para piorar, a comunicação entre a Terra e Marte pode demorar até 20 minutos para chegar, tempo longo demais para controlar o pouso em tempo real da Terra. A solução da JAXA foi deixar a espaçonave tomar as decisões sozinha: ao se aproximar da superfície, a MMX vai comparar o terreno abaixo dela com mapas de crateras já conhecidos, ajustando sua posição sozinha. Abaixo de 300 metros de altitude, ela também vai monitorar mudanças inesperadas de relevo e, se perceber que algo está errado, pode abortar a tentativa, subir e tentar de novo em outro lugar. Como serão coletadas as amostras de Fobos? O robozinho IDEFIX Antes da própria MMX tentar pousar, ela vai soltar um pequeno veículo explorador chamado IDEFIX, desenvolvido pelas agências espaciais da França e da Alemanha. Por cerca de 100 dias, o IDEFIX vai rodar pela superfície de Fobos, ajudando a avaliar as condições do terreno antes da coleta principal de amostras. O braço robótico e o “sopro” de nitrogênio A MMX vai usar um braço robótico para perfurar a superfície e recolher material em tubos cilíndricos. Ela também carrega um dispositivo, originalmente desenvolvido pela NASA, que usa um jato de gás nitrogênio para soprar e coletar poeira bem fina da superfície. Sendo uma segunda forma de garantir que a coleta funcione mesmo se o terreno não cooperar com a perfuração. A espaçonave principal, construída pela Mitsubishi Electric, vai ser lançada com 4.480 kg, mais da metade disso só em combustível, guardado em reservas separadas para a ida, às operações ao redor de Marte e a volta para a Terra. A missão inteira tem um custo estimado em cerca de US$ 345 milhões de dólares. A sonda é dividida em três partes, cada uma com uma função: um módulo de propulsão, que faz a espaçonave viajar até Marte e depois voltar; um módulo de exploração, responsável por pousar em Fobos e coletar as amostras; e um módulo de retorno, que carrega a cápsula com o material coletado de volta à Terra. Ao todo, a MMX carrega 11 instrumentos científicos, usados tanto para observar Fobos, Deimos e Marte à distância quanto para ajudar a escolher, com segurança, o melhor lugar para pousar.










