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Buracos Negros: o que são e como se formam

Buracos negros são um dos objetos mais extremos que conhecemos no universo e também um dos mais mal compreendidos, mesmo entre quem curte astronomia. Neste artigo, a gente vai desmontar o conceito com calma: o que ele é de verdade, como nasce, como conseguimos “ver” algo que não emite luz nenhuma, e quais perguntas ainda deixam os astrofísicos coçando a cabeça.

  • O que é, afinal, um buraco negro?
  • Como um buraco negro se forma?
  • Os buracos negros supermassivos: o mistério que ainda intriga os astrônomos
  • Quantos tipos de buraco negro existem?
  • Como se detecta algo que é, literalmente, invisível?
  • Como foi tirar a primeira foto de um buraco negro
  • O que aconteceria se você caísse em um buraco negro?
  • O paradoxo da informação: o maior mistério ainda sem solução
  • Perguntas frequentes sobre buracos negros
  • Conceitos errôneos sobre buracos negros
  • Um pouco de história: como a ciência chegou até aqui

Na definição mais direta: um buraco negro é uma região do espaço onde uma quantidade absurda de massa está espremida em um volume minúsculo. Essa concentração gera um campo gravitacional tão forte que nada, nem mesmo a luz, a coisa mais rápida que existe, consegue escapar dali.

Repare que não estamos falando de um buraco de verdade, um vazio no espaço. É melhor pensar nisso como um objeto extremamente denso. A fronteira que separa “ainda dá para fugir” de “não tem mais volta” tem nome: horizonte de eventos. A partir dele, a velocidade necessária para escapar da gravidade do buraco negro ultrapassa a velocidade da luz — e como nada no Universo viaja mais rápido que a luz, a fuga simplesmente deixa de ser fisicamente possível. Vale reforçar: o horizonte de eventos não é uma superfície sólida, como o chão da Terra. É um limite matemático, uma linha invisível que demarca o ponto sem retorno.

E lá no centro, segundo as equações da relatividade geral, toda essa massa estaria concentrada em um único ponto de densidade infinita — a chamada singularidade. Aqui vale uma pausa honesta: a física ainda não tem uma teoria completa que explique o que realmente acontece nesse ponto. É exatamente ali que nossas duas grandes teorias fundamentais, a relatividade geral e a mecânica quântica, entram em rota de colisão, e ninguém, até hoje, sabe conciliá-las por completo.

Para entender de onde vem um buraco negro, primeiro precisamos falar sobre como uma estrela nasce e, principalmente, como ela morre.

Toda estrela começa como uma nuvem gigantesca de gás, principalmente hidrogênio, que vai colapsando sobre si mesma por causa da própria gravidade. Conforme o gás se contrai, os átomos colidem cada vez mais rápido e com mais frequência, e a nuvem esquenta. Em determinado momento, a temperatura fica tão alta que os átomos de hidrogênio, ao se chocarem, param de se repelir e passam a se fundir, formando hélio. É essa fusão nuclear que libera energia, e é ela que faz a estrela brilhar.

O calor dessa reação também empurra o gás para fora, aumentando a pressão interna até ela se equilibrar com a gravidade, que puxa tudo para dentro. Pensa em um balão de festa: o ar lá dentro empurra a borracha para fora, e a tensão da borracha puxa para dentro enquanto os dois lados se equilibram, o balão fica estável. Com a estrela é a mesma lógica, só que esse equilíbrio pode durar bilhões de anos.

O problema é que o combustível nuclear não é infinito. E aqui vem uma ironia interessante: quanto mais massiva a estrela, mais rápido ela gasta seu combustível. Estrelas maiores precisam queimar hidrogênio mais depressa e a temperaturas mais altas para sustentar o equilíbrio contra a própria gravidade, e isso significa que elas esgotam suas reservas bem antes das estrelas menores.

Quando o combustível acaba, a fusão para de sustentar a pressão que segurava a estrela contra a gravidade. Sem esse equilíbrio, ela começa a esfriar e a se contrair. E é aqui que o destino da estrela se define: dependendo da massa que sobra, ela vai terminar como uma anã branca, uma estrela de nêutrons ou um buraco negro como você vai ver a seguir.

Quando uma estrela bem massiva, com pelo menos 10 a 20 vezes a massa do Sol, fica sem combustível, a fusão nuclear para de segurar a estrela contra sua própria gravidade. Sem essa força de sustentação, o núcleo começa a colapsar sobre si mesmo. As camadas externas despencam em direção ao núcleo, ricocheteiam e são lançadas para o espaço em uma explosão violenta: a supernova.

O que sobra depois dessa explosão, o núcleo remanescente, segue caminhos diferentes conforme sua massa:

  • Menos massa que o Sol: o núcleo se estabiliza como uma anã branca, um objeto compacto que vai esfriando lentamente ao longo de bilhões de anos.
  • Entre uma e três massas solares, aproximadamente: o núcleo colapsa e forma uma estrela de nêutrons, extremamente densa e compacta. Algumas delas, inclusive, são detectadas como pulsares.
  • Mais de cerca de três massas solares: nada mais consegue segurar o colapso. O núcleo se comprime cada vez mais, sua gravidade aumenta sem parar e, em determinado ponto, nem a luz escapa mais. Nasce um buraco negro.

Vale desfazer uma confusão comum aqui: a famosa marca de 1,4 massas solares, ligada aos cálculos do físico indiano Subrahmanyan Chandrasekhar, não é o limiar para virar um buraco negro, é o limite máximo de massa que uma anã branca consegue sustentar. Para de fato virar um buraco negro, o núcleo remanescente precisa ultrapassar um teto bem maior, de aproximadamente três massas solares.

Esses são os chamados buracos negros de massa estelar, e estima-se que existam milhares deles espalhados pela Via Láctea, a maioria ainda sem ser detectada.

Os pontos azuis neste campo de galáxias, conhecido como campo COSMOS, mostram galáxias que contêm buracos negros supermassivos emitindo raios X de alta energia. Os buracos negros foram detectados pelo NuSTAR (Nuclear Spectroscopic Array) da NASA, que identificou 32 desses buracos negros neste campo e já observou centenas em todo o céu.
Os pontos azuis neste campo de galáxias, conhecido como campo COSMOS, mostram galáxias que contêm buracos negros supermassivos emitindo raios X de alta energia. Os buracos negros foram detectados pelo NuSTAR (Nuclear Spectroscopic Array) da NASA, que identificou 32 desses buracos negros neste campo e já observou centenas em todo o céu. – Créditos da imagem:  NASA/JPL-Caltech

Nem todo buraco negro vem da morte de uma estrela. No centro da maioria das galáxias (a nossa inclusive) moram os buracos negros supermassivos, com massas de milhões a bilhões de sóis. Eles são grandes demais para terem nascido do colapso de uma única estrela, e como exatamente se formam ainda é uma das perguntas em aberto da astrofísica moderna.

Algumas hipóteses que estão sendo investigadas:

  • eles podem ter crescido ao longo de bilhões de anos “comendo” gás, estrelas e até outros buracos negros;
  • podem ter surgido da fusão sucessiva de buracos negros menores;
  • ou podem ter se formado de um jeito ainda desconhecido. Afinal, já foram observados buracos negros supermassivos existindo muito cedo na história do Universo, talvez cedo demais para o tempo que esse crescimento por “engolir matéria” levaria.

Existe ainda uma ideia distinta, e não comprovada, de que parte dos buracos negros do Universo poderia ter surgido logo depois do Big Bang, por processos que ainda não entendemos direito. Futuras missões da Agência Espacial Europeia (ESA), como o telescópio Webb e os observatórios LISA e Athena, devem ajudar a testar essa e outras hipóteses nos próximos anos.

De forma geral, a astronomia costuma dividir os buracos negros em quatro categorias, de acordo com a massa:

  • Estelares: nascem do colapso de estrelas massivas individuais, com poucas a dezenas de massas solares.
  • De massa intermediária: a categoria menos compreendida, com massas entre centenas e milhares de sóis.
  • Supermassivos: moram nos núcleos galácticos, com massas de milhões a bilhões de sóis.
  • Primordiais (ou “miniatura”): puramente hipotéticos, teriam surgido logo após o Big Bang. Sua existência ainda não foi confirmada por observação.

Boa pergunta, né? Buracos negros não emitem nem refletem luz, o que os torna, a rigor, invisíveis para qualquer telescópio. A saída dos astrônomos é observar os efeitos que eles causam no que está ao redor.

Quando há gás e poeira nas proximidades, essa matéria forma um anel giratório em torno do buraco negro: o disco de acreção. Ao ser puxada para dentro, ela acelera e esquenta a temperaturas extremas, emitindo radiação em várias faixas do espectro eletromagnético, incluindo raios X. Essa radiação, sim, os telescópios conseguem captar, mesmo que o buraco negro em si continue invisível.

A gravidade de um buraco negro supermassivo afeta o movimento das estrelas ao redor de um jeito bem característico. Foi acompanhando, ao longo de décadas, as órbitas de estrelas próximas ao centro da Via Láctea que os astrônomos confirmaram a existência do buraco negro supermassivo por lá, hoje batizado de Sagitário A*. Esse trabalho, liderado por Andrea Ghez e Reinhard Genzel, rendeu aos dois o Prêmio Nobel de Física de 2020.

Quando dois objetos extremamente massivos, como dois buracos negros, colidem, essa colisão sacode o próprio tecido do espaço-tempo, gerando as chamadas ondas gravitacionais. Detectores como o LIGO (Observatório de Ondas Gravitacionais por Interferômetro Laser) captaram a primeira dessas ondulações em 2015 — descoberta que também levou o Prêmio Nobel de Física, em 2018. De lá para cá, já foram registradas quase cem colisões desse tipo.

Objetos muito massivos, como buracos negros, conseguem curvar a trajetória da luz de objetos mais distantes que estão atrás deles, um efeito batizado de lente gravitacional. É um dos poucos jeitos de encontrar buracos negros isolados que, de outra forma, passariam completamente despercebidos.

Buraco negro ao centro da imagem em contraste com o fundo preto.
Esta é a primeira imagem de um buraco negro. Usando o Telescópio do Horizonte de Eventos, cientistas obtiveram uma imagem do buraco negro no centro da galáxia M87. (Existe um buraco negro supermassivo no centro da nossa galáxia — a Via Láctea.) – Créditos: Event Horizon Telescope Collaboration

Em abril de 2019, uma rede internacional de radiotelescópios batizada de Telescópio do Horizonte de Eventos (Event Horizon Telescope, ou EHT) conseguiu algo inédito: a primeira imagem direta de um buraco negro. O alvo foi o buraco negro supermassivo no centro da galáxia Messier 87 (M87), a cerca de 500 milhões de trilhões de quilômetros de distância. O anel brilhante que aparece na imagem é gás extremamente aquecido girando ao redor do buraco negro; o centro escuro é o horizonte de eventos e sua sombra.

Como esses objetos estão longe demais para qualquer telescópio sozinho conseguir captá-los com nitidez, os cientistas combinaram observações simultâneas de telescópios espalhados pelo planeta inteiro, entre eles o Telescópio do Polo Sul, operado por uma colaboração liderada pela Universidade de Chicago — funcionando, na prática, como se fossem um único telescópio do tamanho da Terra.

Em 2022, o mesmo time internacional repetiu a proeza fotografando Sagitário A*, o buraco negro supermassivo que fica bem no centro da nossa galáxia. Um detalhe importante: qualquer outra “foto” de buraco negro que você já viu por aí em reportagens, filmes, ilustrações, é representação artística ou simulação. Essas duas são as únicas imagens reais que existem até hoje.

Imagina descer as Cataratas do Iguaçu de canoa. Enquanto você ainda está longe da queda, dá para remar contra a correnteza e escapar. Mas, uma vez que a canoa passa da beirada, não tem mais volta e, conforme a correnteza acelera, o puxão na frente da canoa fica bem mais forte do que na traseira, com risco de ela se partir ao meio.

Com um buraco negro, a lógica é parecida: se você caísse de pés primeiro, a gravidade puxaria seus pés com muito mais força do que sua cabeça, simplesmente porque eles estariam mais perto do buraco negro. O resultado seria um esticamento no sentido do comprimento e uma compressão nas laterais. Um efeito com nome digno de cardápio italiano: espaguetificação.

Quão violento isso é depende do tamanho do buraco negro. Em um buraco negro poucas vezes mais massivo que o Sol, esse esticamento seria brutal o bastante para desmontar qualquer objeto bem antes de chegar ao horizonte de eventos. Já em um buraco negro bem maior (acima de um milhão de massas solares), o gradiente gravitacional é mais suave, e daria para cruzar o horizonte de eventos sem sentir esse efeito de imediato.

E tem um detalhe curioso: para quem está caindo, nada pareceria fora do normal ao cruzar o horizonte de eventos, não existe nenhum “aviso luminoso” marcando essa linha. Mas, para quem está observando de fora, a cena seria completamente diferente: a pessoa pareceria ir ficando cada vez mais lenta ao se aproximar do horizonte, sua imagem cada vez mais fraca e avermelhada, até sumir de vista por completo. Para o mundo lá fora, ela estaria, de fato, perdida para sempre.

Um dos debates mais acalorados da física teórica sobre buracos negros é o chamado paradoxo da informação. As leis fundamentais da física dizem que a informação de qualquer sistema físico nunca deveria desaparecer completamente do Universo, mesmo que você queime um caderno até virar cinza e fumaça, em teoria seria possível reconstruir cada palavra que estava escrita nele a partir dos átomos e da luz espalhados por aí.

O problema é que um buraco negro parece jogar segundo outras regras. Tudo o que cruza o horizonte de eventos (inclusive, hipoteticamente, aquele mesmo caderno) parece sair do alcance de qualquer observação externa para sempre. E isso levanta uma pergunta incômoda: será que essa informação é mesmo apagada do Universo, contrariando uma lei fundamental da física? Ou existe algum mecanismo, ainda não totalmente compreendido, que consegue preservá-la de outro jeito?

Essa é uma das questões teóricas que mais ocuparam a cabeça de Stephen Hawking, e ela continua sem uma resposta definitiva e consensual até hoje.

Qual é o buraco negro mais próximo da Terra? Ninguém sabe ao certo. Buracos negros de massa estelar (com poucos quilômetros de diâmetro) são difíceis de detectar quando não têm matéria visível caindo neles, então é bem possível que existam alguns relativamente pertinho de nós, ainda não identificados. O buraco negro supermassivo mais próximo que conhecemos é Sagitário A*, no centro da Via Láctea, a cerca de 26 mil anos-luz da Terra.

A Terra corre o risco de cair em um buraco negro? Não. Mesmo que o Sol virasse, hipoteticamente, um buraco negro com exatamente a mesma massa, a Terra continuaria orbitando normalmente, do jeito que orbita o Sol hoje porque, à distância em que estamos, a força gravitacional não mudaria nada. Um objeto só corre risco de ser capturado se chegar extremamente perto de um buraco negro.

O Sol vai virar um buraco negro? Não. O Sol simplesmente não tem massa suficiente. Como vimos lá em cima, o núcleo remanescente de uma estrela precisa ultrapassar cerca de três massas solares para colapsar em um buraco negro, o que exige uma estrela original com dezenas de massas solares. O destino do Sol, daqui a cerca de um bilhão de anos, quando começar a ficar sem combustível, é se expandir e depois se contrair até virar uma anã branca.

“Buracos negros sugam tudo ao redor, tipo aspirador cósmico.” Mito. A uma distância segura, o efeito gravitacional de um buraco negro é idêntico ao de qualquer outro objeto com a mesma massa. Se o Sol fosse trocado, hoje, por um buraco negro de massa idêntica, a órbita da Terra continuaria exatamente igual.

“Buracos negros são buracos de minhoca, portais para outro lugar ou outra dimensão.” Também não. Buracos negros não abrem atalhos entre pontos do espaço nem portais para outros universos, essa é uma confusão que os filmes de ficção científica ajudaram (e muito) a espalhar.

A primeira pista teórica sobre a existência dos buracos negros surgiu em 1930, quando o então estudante de pós-graduação Subrahmanyan Chandrasekhar calculou que estrelas cujo núcleo remanescente ultrapassasse 1,4 massas solares (o que ficou conhecido como limite de Chandrasekhar) não conseguiriam se sustentar como anãs brancas e, portanto, colapsariam. A ideia foi recebida com bastante ceticismo na época: o renomado astrofísico Arthur Eddington chegou a rejeitá-la publicamente. Mas o cálculo se mostrou correto, e trabalhos posteriores, incluindo a própria relatividade geral de Einstein, confirmaram que objetos como os buracos negros eram, sim, uma necessidade teórica.

Ao longo da segunda metade do século XX, físicos teóricos como Stephen Hawking, John Wheeler, Jacob Bekenstein e o próprio Chandrasekhar se debruçaram sobre a matemática por trás do conceito. Foi Wheeler, aliás, quem popularizou o termo “buraco negro” em 1967, substituindo a expressão que se usava até então: “estrela congelada”.

As evidências observacionais vieram depois. Nos anos 1960, a descoberta dos quasares (núcleos galácticos extremamente brilhantes) só fez sentido quando associada à existência de buracos negros supermassivos devorando matéria. Nos anos 1990, o rastreamento de estrelas no centro da Via Láctea confirmou a presença de Sagitário A*. Em 2015, o LIGO detectou pela primeira vez ondas gravitacionais vindas da colisão de dois buracos negros. E, em 2019 e 2022, o Telescópio do Horizonte de Eventos produziu as primeiras imagens diretas desses objetos que a humanidade já viu.

Mesmo assim, perguntas fundamentais continuam em aberto: como, exatamente, os buracos negros supermassivos se formam? O que de fato acontece com a informação que cai neles? O que existe, na prática, dentro de uma singularidade? Como resumiu bem o Prof. Daniel Holz: “Tudo sobre buracos negros é absurdo. É muito tentador dizer que eles não podem existir, exceto pelo fato de que tanto nossas teorias quanto nossas observações mostram que eles devem existir e, de fato, existem.”

Referências: Stephen Hawking, Breves Respostas para Grandes Questões; Stephen Hawking, Uma Breve História do Tempo; NASA; National Geographic; Agência Espacial Europeia (ESA); Royal Museums Greenwich; The University of Chicago.

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