Pela primeira vez na história, uma missão espacial vai tentar trazer para a Terra um pedaço de uma lua que orbita Marte. O responsável por essa proeza é o Japão, com a missão MMX — sigla para Martian Moons eXploration, ou “Exploração das Luas de Marte”. O alvo é Fobos, a maior das duas luas de Marte, e a expectativa é trazer as primeiras amostras à Terra em 2031.

O que é a missão MMX?
A MMX é uma missão liderada pela JAXA, a agência espacial japonesa, com participação da NASA (Estados Unidos), da CNES (França), da DLR (Alemanha) e da ESA (Europa). Essa é de longe, a maior missão de exploração planetária internacional já liderada pelo Japão. O lançamento está previsto para outubro de 2026, a bordo de um foguete H3, a partir do Centro Espacial de Tanegashima.
A espaçonave deve levar cerca de um ano só para chegar até a esfera de influência de Marte, onde vai passar mais três anos observando o planeta e suas duas luas, além de pousar em Fobos para coletar amostras, antes de iniciar a longa viagem de volta de aproximadamente um ano também. A cápsula com as amostras deve se separar da espaçonave principal e reentrar na atmosfera terrestre, com pouso previsto na Austrália, em 203, trazendo pelo menos 10 gramas de material de Fobos para estudo na Terra.
Essa será a primeira vez que uma missão espacial traz de volta amostras de uma lua em órbita de Marte e também o primeiro lançamento de uma sonda japonesa rumo a Marte em 28 anos.
Além da coleta de amostras, a missão japonesa pretende responder como surgiram, no Sistema Solar, os ingredientes e as condições necessárias para que a vida pudesse existir? Estudar a origem de Fobos e Deimos pode revelar como água e matéria orgânica se espalharam pela região onde Marte se formou. Peças importantes desse quebra-cabeça sobre a habitabilidade dos planetas rochosos, incluindo o nosso.
Por que Fobos, e não Marte?
Fobos é pequena, tem um raio de apenas cerca de 11 quilômetros, mas guarda um mistério e tanto: ninguém sabe ao certo de onde ela veio.
Existem duas teorias principais. A primeira diz que Fobos e sua irmã Deimos são, na verdade, asteroides capturados pela gravidade de Marte há muito tempo. A segunda diz que as duas luas se formaram a partir de detritos lançados em órbita depois de uma colisão gigante entre Marte e outro corpo do espaço. Parecido com a teoria mais aceita para a origem da nossa própria Lua. Também existe a possibilidade de um processo “híbrido”, misturando as duas ideias.
Um detalhe que pesa a favor da teoria do impacto: as órbitas de Fobos e Deimos são quase perfeitamente circulares e seguem exatamente o plano do equador de Marte, na mesma direção da rotação do planeta. Um padrão mais difícil de explicar se elas fossem, simplesmente, asteroides “pegos de passagem”.
Além disso, os cientistas acreditam que Fobos guarda outro tesouro: ao longo do tempo, impactos em Marte lançaram material do planeta para o espaço, e parte desse material pode ter se depositado na superfície da lua. As estimativas indicam que cerca de 0,1% do material coletado pela MMX pode, na verdade, ter vindo do próprio planeta Marte.
O desafio de pousar em um lugar tão estranho

Pousar em Fobos é desafiador porque a gravidade da lua é muito mais forte do que a do asteroide Ryugu, onde a JAXA já pousou uma sonda antes, usando um método rápido de “toque e vai embora”. Mas é muito mais fraca do que a gravidade da nossa Lua. Isso deixa a MMX sem uma técnica pronta para usar: o método usado em Ryugu gastaria combustível demais em Fobos, mas as técnicas pensadas para pousos lunares também não servem para uma gravidade tão fraca.
Para piorar, a comunicação entre a Terra e Marte pode demorar até 20 minutos para chegar, tempo longo demais para controlar o pouso em tempo real da Terra. A solução da JAXA foi deixar a espaçonave tomar as decisões sozinha: ao se aproximar da superfície, a MMX vai comparar o terreno abaixo dela com mapas de crateras já conhecidos, ajustando sua posição sozinha. Abaixo de 300 metros de altitude, ela também vai monitorar mudanças inesperadas de relevo e, se perceber que algo está errado, pode abortar a tentativa, subir e tentar de novo em outro lugar.
Como serão coletadas as amostras de Fobos?
O robozinho IDEFIX
Antes da própria MMX tentar pousar, ela vai soltar um pequeno veículo explorador chamado IDEFIX, desenvolvido pelas agências espaciais da França e da Alemanha. Por cerca de 100 dias, o IDEFIX vai rodar pela superfície de Fobos, ajudando a avaliar as condições do terreno antes da coleta principal de amostras.
O braço robótico e o “sopro” de nitrogênio
A MMX vai usar um braço robótico para perfurar a superfície e recolher material em tubos cilíndricos. Ela também carrega um dispositivo, originalmente desenvolvido pela NASA, que usa um jato de gás nitrogênio para soprar e coletar poeira bem fina da superfície. Sendo uma segunda forma de garantir que a coleta funcione mesmo se o terreno não cooperar com a perfuração.
A espaçonave principal, construída pela Mitsubishi Electric, vai ser lançada com 4.480 kg, mais da metade disso só em combustível, guardado em reservas separadas para a ida, às operações ao redor de Marte e a volta para a Terra. A missão inteira tem um custo estimado em cerca de US$ 345 milhões de dólares.
A sonda é dividida em três partes, cada uma com uma função: um módulo de propulsão, que faz a espaçonave viajar até Marte e depois voltar; um módulo de exploração, responsável por pousar em Fobos e coletar as amostras; e um módulo de retorno, que carrega a cápsula com o material coletado de volta à Terra. Ao todo, a MMX carrega 11 instrumentos científicos, usados tanto para observar Fobos, Deimos e Marte à distância quanto para ajudar a escolher, com segurança, o melhor lugar para pousar.
Um mapa para escolher onde pousar

Escolher onde pousar em Fobos não é só uma questão de achar um terreno plano. Um estudo científico recente, publicado por Isabel Herreros e Sébastien Charnoz na revista Earth and Planetary Science Letters, mapeou como o material solto da superfície de Fobos, chamado regolito, se movimenta ao longo do tempo.
Na Terra, uma pedra solta desliza morro abaixo por causa da gravidade. Em Fobos, a gravidade é tão fraca que outras forças atuam juntas: as marés causadas por Marte, a rotação da própria lua e até o efeito de “puxão” causado por ela girar (chamado força centrífuga). A combinação dessas forças cria o que os pesquisadores chamam de Caminhos de Migração do Regolito, por serem “caminhos” por onde o regolito se movimenta com o tempo.
Esse mapeamento é útil porque a MMX vai coletar amostras em dois pontos bem específicos de Fobos: um voltado para Marte, e outro no lado oposto do satélite. Segundo o estudo, esses dois pontos têm histórias bem diferentes. O lado voltado para Marte acumula material mais antigo, misturado e bastante exposto ao ambiente espacial ao longo de muito tempo. Já o lado oposto está mais ativo, com regolito mais jovem. O que significa que a amostra coletada ali pode preservar informações mais “frescas” sobre a superfície ou o subsolo raso da lua.
Linha do tempo da missão MMX
- Outubro de 2026: lançamento a bordo de um foguete H3, a partir do Centro Espacial de Tanegashima, no Japão.
- 2027: chegada da MMX à esfera de influência de Marte.
- 2027–2030: cerca de três anos de operações ao redor de Marte, Fobos e Deimos, incluindo o pouso em Fobos e a coleta de amostras.
- 2030: partida da esfera de influência de Marte, rumo à Terra.
- 2031: separação da cápsula de retorno, reentrada na atmosfera terrestre e recuperação na Austrália, com pelo menos 10 gramas de material de Fobos.
Perguntas frequentes sobre a missão MMX
O lançamento está previsto para o ano fiscal de 2026, com estimativas apontando para outubro, a bordo de um foguete H3, a partir do Centro Espacial de Tanegashima, no Japão.
A cápsula de retorno vai se separar da espaçonave principal, reentrar na atmosfera da Terra e pousar na Austrália. Esse método é parecido com o usado por outras missões japonesas de retorno de amostras.
A previsão é que isso aconteça em 2031, depois de um ano de viagem até Marte, cerca de três anos de operações no sistema marciano e mais um ano de viagem de volta.
Porque a origem de Fobos ainda é um mistério! Ela pode ser um asteroide capturado por Marte, ou o resultado de uma colisão gigante que formou um disco de detritos ao redor do planeta. Além disso, a lua pode guardar pequenos fragmentos do próprio Marte, lançados ao espaço por impactos ao longo do tempo.
As duas são as luas de Marte, mas Fobos é a maior, mais próxima do planeta e o alvo principal da missão MMX. A espaçonave também vai sobrevoar Deimos durante a missão, embora a coleta de amostras seja planejada apenas para Fobos.
A missão tem um custo estimado em cerca de US$345 milhões de dólares.
Sim. Se for bem-sucedida, a MMX será a primeira missão da história a trazer amostras de uma lua em órbita de Marte para a Terra.
A missão é liderada pelo Japão, através da JAXA, com participação da NASA (Estados Unidos), da CNES (França), da DLR (Alemanha) e da ESA (Europa).






























